08/02/10 - 08h44
Fonte: Matheus Arcaro : matheus@abelharainha.com
Não foi capaz de trancar a porta. Jogou a marmita sobre a cama, passou a mão na garrafa e correu para o banheiro. A fenda que atravessava o espelho não a impediu de encarar aquele estranho: amiR. Coincidência? Destino? Indagava-se a cada intervalo do movimento do copo à pia. O uniforme sujo era o fato mais insignificante, o indicativo menos expressivo para representar o seu longo dia. Aos leitores puritanos, apreensiva seria um termo utilizável se sujeito fosse. Mais adequado, no entanto: nua, com o espírito à mostra.
Apesar da variação dos pares que a engendravam, originalidade nunca fora uma de suas virtudes. A dupla “amor” e “dor”, por exemplo, sempre aparecia nas composições das quais fazia parte. Verbos no infinitivo, emparelhados ou intercalados, também eram uma constante. Os temas medíocres não a incomodavam porque não os classificava assim. Sequer os classificava. Circunscrita num mundo de um palmo de diâmetro era insignificantemente feliz até o fatídico encontro.
Três estações depois da habitualmente escutada pelo “músico”. Um giro mais brusco no dial do rádio fora o bastante para virar a sua vida de ponta cabeça. O aspirante a pop star precisava de uma estrofe para terminar sua obra-prima e, convicto de que ninguém, exceto sua tia-avó, ouvia esse tipo de canção, deitou tinta: “Meu coração / Não sei por que / Só por um triz / Que não te vê”. A mistura da sorte (de encontrar a rádio clássica) com a plagiante inspiração do compositor a colocou frente a frente, ou melhor, “cima a baixo” com a, até então desconhecida prima rica que, de supetão, foi enumerando as possibilidades poéticas que conhecia. Perplexidade foi pouco: adjetivos com substantivos! Pronomes com preposições! Como? O que seriam as tais aliterações? E as metáforas existiam? Se a ignorância é a mãe da felicidade, ela estava órfã. Descobrir sua condição a jogara num buraco sem fundo. Ser não estava em seus planos.
Bebeu no gargalho a metade restante e jogou a garrafa contra o seu reflexo. Tortura e combustível, as palavras da nova parenta há semanas não a deixavam dormir, roubavam seus poucos pensamentos.
O encontro com a Rima Rica foi a faísca de uma grande explosão que deveria acontecer. Dias de ininterrupta andança e um mundo deslumbrante abrira-se à sua frente: redondilhas; versos alexandrinos; rimas perfeitas, raras, agudas; gênero lírico, dramático... Ao longo de sua inconsciente existência não aprendera a ser atrevida. Ousadia demais exigir uma conjunção! Todavia, nas últimas semanas, descobriu que, como a flecha lançada, a ingenuidade não volta. Era inevitável, tinha que mobilizar suas irmãs para a Revolução. Se conhecesse a história de Paulo, afirmaria que sua missão era mais árdua que a do apóstolo, visto que seus argumentos não prometiam nada além da possibilidade. De quando em vez a sorte joga a favor dos desvalidos. A peregrinação desgovernada do início tornara-se uma Odisséia às avessas: enquanto na Epopéia de Homero, ao regressar para Ítaca, Ulisses ia perdendo companheiros, ela ia engajando, desde as rimas mais miseráveis até as medianas, formando um exército fonético. Horas de planejamento, reuniões secretas e não-secretas; cachaça e baralho; Shakespeare e Paulo Coelho e lá estavam todas, de peito aberto e punhos serrados, prontas a doarem suas vidas para que a dialética se cumprisse rumo aos versos heróicos, rumo ao Soneto perfeito.
Vazia, a segunda garrafa fazia as honras de espada frente ao espelho espedaçado. Pensar que há poucas semanas passeava pelos papéis dos poetas crus e voava ao som das palavras dos quase-músicos a fez interromper a simulação de embate. Em instantes, ou reinaria ou sangraria. Não cogitou uma terceira hipótese: a de que não protagonizaria a Grande Revolução que estava por vir. Não enxergou os Versos Livres entrando pelas portas dos fundos da História...
Matheus Arcaro é publicitário, graduado pelo Centro Universitário Barão de Mauá, graduando em Filosofia pelo Centro Universitário Moura Lacerda, artista plástico, aluno de Artes Plásticas e História da Arte no ateliê Ubirajara Júnior desde janeiro de 2007. e-mail: matheus@abelharainha.com
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